O começo da história

Ela começou a explicar como foi parar na Ilha de Bijagós assim...

“Meu marido sempre quis viver em uma ilha.

Eu não. Nunca sonhei com isso...”

Entre a Costa do Marfim e o mar

Eles viviam na Costa do Marfim.

Ele cresceu lá, estudou em escolas francesas, já que o país tem forte influência da França. Mas não gostava de estudar. Os pais dele eram professores e sempre diziam:

“Você acha que a pesca vai te sustentar? Você precisa estudar.”

Imagine… dois pais professores, e ele não gostava de ir para a escola.

Então ele foi para o exército.

Depois disso, começou a pescar no Senegal. Um dia, enquanto pescava, encontrou um pescador com um barco cheio de peixes. Perguntou de onde vinha tudo aquilo, e o homem respondeu que vinha de um arquipélago incrível… onde as pessoas viviam de forma muito tradicional, com peixe por toda parte.

O arquipélago dos Bijagós

Hoje não é mais assim. A indústria da pesca cresceu muito, e isso trouxe impactos enormes. É preciso fazer escolhas responsáveis, porque essa indústria pode ser bastante destrutiva. Mas, naquela época, havia abundância.

Um ano depois, ele veio para cá e se apaixonou pelo arquipélago dos Bijagós. E voltou para o exército na França.

A doença que mudou o rumo

Só que ficou doente. Pensaram que era dengue, mas era malária. O vírus atingiu o cérebro, e ele chegou a morrer clinicamente. Ficou ligado às máquinas, e os médicos disseram aos pais dele que deveriam desligá-las, pois, se sobrevivesse, ficaria em estado vegetativo.

Os pais não aceitaram.

Dezesseis dias depois, ele acordou.

Não conseguia mover as pernas.

Foi um momento muito duro.

A decisão de viver na ilha

Quando se recuperou, percebeu que aquele não era o caminho dele. Decidiu deixar o exército e seguir o que realmente queria: viver na ilha. E fez isso.

Chegando lá, fez muitos tipos de trabalho. Teve sorte, porque ainda recebeu um pagamento do exército francês que demorou dois anos para chegar. Enquanto isso, foi aprendendo a vida local, a cultura dos bijagós, com calma, aos poucos… e assim começou a construir o sonho dele.

Uma ilha não pertence a ninguém

Mais tarde, ele chegou a uma ilha com um grupo de cientistas que estudavam a região. Quando chegou, disse:

“Essa é a minha ilha.”

Mas ali, uma ilha não pertence simplesmente a alguém.

Ela pertence aos espíritos que vivem nela.

E, quando falam de espíritos, falam dos ancestrais.

Os espíritos da natureza não são acessíveis, não se fala diretamente com eles. Já os ancestrais são aqueles que retornam, porque acreditam na reencarnação. Acreditam que a alma volta em outro corpo para ajudar os vivos, mostrar o caminho certo, como uma sabedoria antiga que retorna.

Então começaram a fazer cerimônias para pedir permissão para viver ali.

As pessoas nunca dizem “não”…

mas também não dizem “sim” facilmente.

O sinal

Em um momento, enquanto ele acampava, ajudou uma mulher grávida a dar à luz. Ali, os homens não costumam tocar mulheres nesse momento, mas ele ajudou, como sabia, lembrando do nascimento da própria filha. Tudo correu bem.

Naquela noite, ouviram o som do bombolom sagrado, um instrumento usado para comunicação entre as ilhas.

Era um sinal.

Logo depois, vieram chamá-lo.

Era o momento de iniciar as cerimônias que permitiriam que ele se estabelecesse ali.

O caminho dela

E quanto a mim…

Eu era missionária ligada aos jesuítas. Fui enviada para Timor-Leste, mas sempre quis viver na África.

Quando voltei a Portugal, tentei ser freira, mas não fui aceita.

Um padre me disse:

“Esqueça isso. Vá para a África, case com um homem louco e fique lá.”

E, no fim… ele estava certo.

O encontro

Fui como visitante para a ilha.

Quando o vi, pensei:

“Eu não quero viver numa ilha.”

Era tudo muito estranho.

Mas, aos poucos, nos aproximamos.

Eu o conquistei…

e já se passaram 12 anos.

O tempo da escolha

Mesmo assim, levei tempo antes de decidir viver ali.

Porque, às vezes, a gente ama alguém

e esquece de si mesma.

Eu levei três anos para ter certeza de que aquela também era a minha escolha.

Porque, no fim, a responsabilidade é sempre nossa.

A escolha é sempre nossa.

(Esse texto é o depoimento de nossa guia em Bijagós, uma portuguesa que me impressionou pela sua história e hoje vive com sua família na ilha que seu marido sonhou e montou uma pousada de pesca.)