Caminhava pelas ruas de Paris, num frio gostoso de dezembro, quando um cartaz chamou minha atenção. Não era um programa planejado, nem algo que eu tivesse lido ou marcado com antecedência. O anúncio da exposição Dynastic Jewels estava ali, quase como um convite. A poucos passos de onde estávamos, no Hôtel de la Marine, um lugar que eu já conhecia e cuja visita sempre vale a pena.
Não era a primeira vez que eu entrava em uma exposição ali. Ainda assim, a sensação se repete. Desde a entrada escura, a iluminação precisa conduz o olhar com foco e intenção. Cada joia ali exposta recebe a importância que merece. Antes mesmo de ver a primeira vitrine, já se entende que não se trata apenas de beleza, mas de história, poder e legado.
A exposição reúne joias dinásticas da Al Thani Collection, uma das coleções privadas mais importantes do mundo. São peças que atravessaram séculos e carregam muito mais do que pedras valiosas. Carregam símbolos. A joia como expressão de poder e status, mas também como objeto afetivo, presente de Estado, marca de alianças, favores reais e continuidade dinástica.
Entre vitrines de colares, diademas, broches, tiaras e pedras extraordinárias, surgem nomes que fazem parte do imaginário histórico. Joias pensadas para os cenários mais opulentos das cortes reais, criadas para comunicar linhagem, autoridade e pertencimento.
O que mais me chama atenção, como designer de joias, é perceber como esses objetos sempre estiveram a serviço de algo maior. Não eram apenas adornos. Eram linguagem. Eram política. Eram herança. Cada joia articulava, de forma clara e simbólica, o lugar de quem a usava no mundo.
A exposição foi realizada em colaboração com o Victoria and Albert Museum, reunindo joias históricas tanto do acervo do V&A quanto da Al Thani Collection. A mostra se amplia ainda com empréstimos de instituições como a Royal Collection, com a generosidade do rei Charles III, além de palácios históricos, museus franceses e casas joalheiras que ajudaram a construir a história da alta joalheria europeia.
Saí da exposição cheia de reflexões. Sobre o tempo das joias. Sobre o papel simbólico que elas sempre desempenharam ao longo da história. E sobre como, ainda hoje, seguimos buscando nelas algo que vá além do brilho e do valor material.
Talvez seja isso que mais me encante. As joias mudam de mãos, atravessam corpos, épocas e contextos. Mas continuam ali. Guardando histórias, afetos e intenções. Nos lembrando que algumas coisas atravessam o tempo como parte viva da nossa própria história.
Para acompanhar a programação do Hôtel de la Marine:
https://www.hotel-de-la-marine.paris/en
