O poder do não: sobre escolher o que permanece
Uma palavra pequena
Tenho pensado bastante no valor de uma palavra muito pequena: não.
Durante muito tempo, talvez tenhamos aprendido a enxergá-la como uma palavra negativa.
Não posso. Não quero. Não vou. Não preciso.
Como se dizer não significasse necessariamente perder alguma coisa, fechar uma porta ou deixar passar uma oportunidade.
Hoje penso um pouco diferente.
Talvez alguns dos nossos “nãos” sejam uma das formas mais silenciosas de autoconhecimento.
Não, hoje não estou disponível.
Não, não preciso comprar isso.
Não, não preciso de mais um creme.
Não, não preciso acompanhar essa tendência.
Não, não preciso de mais um episódio.
São decisões aparentemente pequenas, mas que partem de uma pergunta muito maior:
Isso realmente faz sentido para mim?
Tudo aquilo que parece faltar
Vivemos cercadas por estímulos que nos lembram, o tempo todo, de alguma coisa que ainda nos falta.
Falta uma roupa. Falta conhecer aquele lugar. Falta experimentar aquele restaurante.
Falta um tratamento dermatológico novo. Falta o creme, a maquiagem que promete uma pele mais jovem.
Falta acompanhar uma tendência que, até pouco tempo atrás, nem sabíamos que existia.
E, para as mulheres, existe ainda uma camada particular nessa conversa.
Há sempre alguma coisa que poderíamos melhorar.
A pele poderia ser mais lisa. O corpo poderia ser mais definido. O cabelo poderia ter outro aspecto.
O armário poderia estar mais atualizado. A casa poderia estar mais bonita.
Poderíamos produzir mais, estar mais presentes, cuidar melhor de todos e, de preferência, fazer tudo isso parecendo descansadas.
É uma lista que nunca termina.
O não como filtro
Talvez por isso eu tenha começado a gostar tanto da palavra não.
Não como resistência ao mundo, mas como um filtro.
Porque nem tudo o que é bonito precisa ser meu.
Nem tudo o que é interessante precisa entrar na minha vida.
Nem toda novidade precisa ser experimentada.
Nem toda tendência precisa se transformar em desejo.
Existe uma liberdade enorme em perceber que eu posso gostar sem querer ter.
Posso reconhecer a beleza de um objeto sem imaginar onde colocá-lo em casa.
Posso achar uma tendência interessante sem precisar fazer parte dela.
Admirar não precisa terminar em possuir.
Entre gostar e querer
Talvez essa seja uma distinção que estejamos perdendo um pouco.
Somos constantemente convidadas a transformar interesse em desejo e desejo em aquisição.
Vemos alguma coisa bonita e, quase imediatamente, surge a pergunta:
Onde encontro? Quanto custa? Como compro?
E, em menos de um minuto, aquilo já está diante de nós na tela, faltando apenas apertar o botão de comprar.
Mas existe outra possibilidade.
Podemos simplesmente olhar.
Gostar. Nos inspirar.
E seguir adiante.
Nesse sentido, o não deixa de ser privação.
Ele passa a ser escolha.
E talvez seja justamente aí que o autoconhecimento apareça: quando conseguimos separar aquilo que genuinamente desejamos daquilo que aprendemos a desejar porque foi colocado diante de nós muitas vezes.
Não é uma defesa do pouco
Mas há um ponto que, para mim, é importante deixar claro: não estou propondo uma vida espartana, nem fazendo uma defesa do pouco.
Eu gosto de beleza.
Gosto de objetos, especialmente de viagens, de coisas de casa, de arte e, evidentemente, de joias.
Não acredito que exista virtude simplesmente em ter menos, assim como não acredito que exista felicidade automática em ter mais.
Para mim, a questão está em outra palavra:
sentido.
O que ainda faz sentido?
O que continua me representando?
O que estou escolhendo e o que estou apenas acumulando?
O que entrou na minha vida porque eu realmente quis e o que entrou porque, de alguma maneira, me disseram que eu deveria querer?
O exercício de olhar novamente
Talvez valha fazer esse exercício de tempos em tempos.
Abrir o armário.
Olhar os objetos da casa.
Rever compromissos.
Olhar para a prateleira do banheiro cheia de promessas.
E perguntar:
Eu ainda quero tudo isso?
Há coisas às quais diremos sim novamente, com alegria.
Outras talvez tenham cumprido seu ciclo.
E algumas descobriremos que nunca precisaram estar ali.
E quando abrimos uma caixa de joias?
O mesmo acontece quando abrimos uma caixa de joias.
Talvez você não precise de mais uma joia.
Talvez precise olhar novamente para as que já tem.
Para aquela que pertenceu à sua mãe ou à sua avó.
Para um brinco que perdeu o par.
Para um anel que continua guardando uma história importante, embora já não combine com você.
Para pedras que permanecem lindas, mesmo quando o desenho da joia já não representa quem você é hoje.
Quando criar não significa acrescentar
É uma reflexão que também atravessa o meu trabalho.
No Bespoke, muitas vezes, criar não começa acrescentando algo novo.
Começa olhando para o que já existe.
Entendendo o que merece permanecer, o que pode ser transformado e o que aquela pessoa quer levar consigo para uma nova fase da vida.
Às vezes, o próximo gesto não é acrescentar.
É transformar.
Preservar o que importa, retirar o que já não faz sentido e permitir que aquilo que já possuímos encontre uma nova forma de permanecer conosco.
O que escolhemos manter
Talvez o poder do não esteja justamente aí.
Não em recusar o mundo, a beleza ou o desejo.
Mas em criar espaço suficiente para reconhecer aquilo ao qual realmente queremos dizer sim.

