Eu sempre tive vontade de ir a Rishikesh. A cidade é conhecida como a Capital Mundial do Yoga e está localizada às margens do Rio Ganges. Depois de um tour pelo Rajastão e Varanasi com duas amigas, sugeri que terminássemos a viagem no Ananda, um retiro de bem-estar holístico.
Explicar Rishikesh a partir do Ananda é falar de contraste, quase como tudo na Índia.
A chegada ao aeroporto de Dehradun me surpreendeu. Faltava gente, faltava aquela confusão. Parecia que algo estava errado. Como se, por um instante, eu tivesse saído da Índia.
Do aeroporto ao hotel, a estrada começa a subir. Sinuosa e estreita, com motoristas que conduzem com calma , muitas vezes na contramão, ultrapassando em curvas, ora andando muito devagar, ora até parando no meio da estrada. A tensão aparece, mas, como tudo por ali, parece ser o “normal”. Ninguém reclama, ninguém grita. Existe uma lógica indiana ali, diferente da nossa, talvez intuitiva.
Então um portão grande se abre. O verde envolve o caminho e a tranquilidade ocupa o que antes era expectativa. O ritual do check-in é carinhoso.
No alto da montanha, o Ananda se revela como um refúgio pensado para desacelerar o corpo e organizar a mente.
O acolhimento é real. Não é protocolo, é presença.
As terapias não são aplicações de técnicas, vão além disso, são rituais. Cada escolha no programa parece desenhada para que você se sinta cuidada por inteiro.
As palestras de Vedanta ampliam o olhar. As de Ayurveda reorganizam ideias para que caibam no cotidiano. Nada é forçado, nada é imposto.
A prática matinal de meditação e yoga nos centra antes que o dia comece num lugar acolhedor em meio a um jardim. A comida é cuidadosamente selecionada e nutre sem pesar.
O kurta pijama branco, disponível para todos os hóspedes, é simples e muito confortável. Você deixa de precisar escolher o que vestir e, sem perceber, experimenta a leveza de não decidir nada nos primeiros momentos da manhã.
É curioso como algo tão pequeno pode nos fazer sentir tão livres. No final, dá até vontade de levar um conjunto para casa, como se fosse possível prolongar o que se sente ali.
Há coerência. Atividades e conteúdos caminham juntos. Nada é excesso.
Ananda significa felicidade verdadeira. Uma alegria que não depende das circunstâncias externas. A palavra não é só um nome, é a atmosfera do lugar.
Talvez a melhor forma de explicar a experiência seja esta: primeiro você desacelera por fora, depois começa a silenciar por dentro.
E quando chegou a hora de ir embora, quase sem querer fazer o check-out, entendi que a dor não era da partida, mas da incerteza de continuar sentindo o que senti ali.
O aprendizado passou a ser outro.
Trazer para o dia a dia as sementes plantadas ali. Das conversas, das trocas, dos ensinamentos. E, principalmente, desse estado interno que, uma vez acessado, você sabe que existe e que pode escolher cultivar.
